As histórias que os mapas contam – Entrevista com Junia Furtado

Pesquisadora associada ao Proprietas é autora do livro “O mapa que inventou o Brasil”, no qual investiga o documento que determinou os limites do atual território brasileiro

Por Eduarda Kuhnert

A historiadora Junia Furtado é a convidada especial da última edição do “História em Roda Viva”, série de debates promovida pelo Proprietas. Junia é professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora associada ao instituto, sendo reconhecida por sua pesquisa sobre o Brasil Colônia, na qual tem se debruçado sobre questões como escravidão, cartografia, extração de minérios em Minas Gerais. Conversamos com a pesquisadora após o evento, realizado em abril, no Campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), que teve como eixo temático as reflexões propostas por ela ao longo de sua trajetória acadêmica.

EDUARDA: No título do seu livro “O mapa que inventou o Brasil” está implícita a concepção de criação de territorialidades por meio dos documentos cartográficos. Ou seja, a produção de mapas é a produção de uma realidade e não vice-versa. Como essa noção se alinha à temática da propriedade, tão cara ao Proprietas?

JUNIA: O grande expoente da interpretação dominante sobre a formação do território brasileiro foi Jaime Cortesão. A ideia dele é que a expansão do território para o oeste foi um processo natural, que foi sendo construído aos poucos. Por isso, nesse momento, observamos um interesse renascido pelos bandeirantes, que seriam os artífices dessa expansão territorial.

No livro clássico de Cortesão, “Raposo Tavares e a formação territorial do Brasil”, ele aponta que é como se tivéssemos, [na formação territorial do Brasil], um destino manifesto da expansão territorial. Em outra obra de Cortesão, “Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid”, o objetivo foi mostrar que o Tratado de Madrid representou a culminância do processo territorial, como se a formação das fronteiras fosse natural. Um documento importante para a comprovação desse destino manifesto é o mapa de Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville, que representa o Brasil continental com fronteiras no oeste e no norte extremamente recuadas em relação à demarcação no Tratado de Tordesilhas.

À medida que fui me debruçando sobre essa documentação e todo o contexto geopolítico em torno desse mapa, percebi que o processo [de formação territorial] era justamente o contrário. Ou seja, trata-se de uma invenção cartográfica. Existem muitos espaços em branco no mapa do d’Anville. Isso acontece pois o território não estava ocupado e tampouco existiam informações geográficas seguras sobre a formação de certas partes do território. Pelo método de d’Anville, na dúvida, deixa-se [a marcação territorial] em branco. Por isso, o mapa possui uma série de bolsões em branco. Entretanto, exatamente nos pontos-chave da fronteira, há uma presença portuguesa, comprovada pelas informações geográficas, o que justifica levar a fronteira para além. A criação do mapa d’Anville é concomitante à visão que Dom Luís da Cunha foi forjando, na primeira metade do século XVIII, sobre a conquista desse território ainda não ocupado pela coroa portuguesa. Vale lembrar que o grande ponto do Tratado de Madri é o “uti possidetis”, uma ideia nova diplomaticamente, na qual cada país ficaria com o território que colonizou. Contudo, a maior parte do espaço não estava colonizada, nem pelos portugueses nem pelos espanhóis. Por isso, a importância de tentar mostrar que, em determinados pontos-chave do mapa, havia uma ocupação portuguesa, demonstrada pelo conhecimento geográfico. Na verdade, o próprio “uti possidetis” é uma invenção, uma vez que os portugueses não estavam tomando posse daquilo que tinham colonizado, e sim do que pretendiam colonizar. Em 1760, esse tratado é anulado por ambas as partes. Quando assume o poder, Marquês de Pombal transforma em fato concreto aquilo que o Tratado de Madrid tinha colocado como se fosse fato concreto: a presença portuguesa no território. Nesse momento, os governadores, especialmente do Amazonas e do Centro-Oeste, começam a criar cidades que, em grande parte, são deslocamentos de aldeias indígenas. Seus habitantes passam a ser considerados cidadãos portugueses e a morar em espaços com uma noção administrativa e arquitetônica portuguesa. Assim, o que tento demonstrar é que toda política a partir de então convergirá para tornar realidade o que estava representado no mapa. Dessa forma, o mapa é um projeto, e não um espelho real do que os portugueses tinham colonizado. Esse projeto [de formação territorial do Brasil] será muito bem-sucedido pela coroa portuguesa, em um primeiro momento, e posteriormente, com a Guerra da Cisplatina [1825-1828] e a compra do Acre [1903], já na época do Brasil independente. O único ponto desse projeto imperial de 1750 que não vigorou até os dias de hoje foi a Cisplatina, que acabou sendo perdida. Do ponto de vista metodológico, os historiadores da cartografia tem chamado muita atenção para essa antecipação do mapa ao território. Nós sempre pensamos que o mapa vem depois do território, mas, muitas vezes, o mapa é feito com intencionalidade e se configura como um projeto futuro.

E: Durante o “História em Roda Viva”, você citou a existência de mapas mentais produzidos a partir de relatos. Isso me chamou atenção pela transição da palavra em imagem. Você aborda essa discussão em seu livro?

J: Sim, isso me interessa. Comecei a trabalhar com representação cartográfica a partir dos mapas mentais, alguns relatos geográficos que encontrei em livros de Medicina. Quando estava fazendo a edição crítica do livro “Erário Mineral”, de Luís Gomes Ferreira – um cirurgião barbeiro que vai a Minas no início do século XVIII –, percebi a forte presença de uma descrição geográfica sobre a região, assim como em outros livros dessa época. Foi assim que cheguei à cartografia. Não fui dos mapas gráficos para os mapas mentais, mas o contrário. Fui percebendo que esse  tipo de representação que aparecia nos textos também aparecia nos mapas, como o correspondente de uma representação, como o desenho. Escrevi três textos sobre mapas mentais. Um deles sobre José Rodrigues Abreu, chamado “Uma formação imaginária emboaba das Minas Gerais”. O outro sobre os irmãos Nunes. Eles têm uma história muito interessante, porque são cristãos novos, fugiram da Inquisição portuguesa e chegaram ao Brasil pela Bahia, descendo o Caminho do Sertão e se estabelecendo em Minas Gerais. Os Irmãos Nunes são, antes de tudo, comerciantes. Contudo, ao chegarem em Minas, acabaram se assentando em uma propriedade e vivendo também da exploração mineral, apesar de ainda comercializarem mercadorias. Estudei as cartas dos Irmãos Nunes, que são descrições geográficas desse caminho entre Minas e Bahia que eles percorreram inúmeras vezes devido a essa atividade comercial. Esse percurso possui várias ramificações, mas um único caminho está representado no mapa d’Anville, que aparece simplificado, como se houvesse somente um trajeto. Considero que o mais interessante desse mapa mental não é apenas desvendar a geografia, mas o que subjaz ao texto: ele foi escrito como propaganda para outros cristãos novos irem para Minas Gerais, uma vez que ali seria o paraíso – o que, na cultura judaica, é compreendido como Terra Prometida. Assim, Minas Gerais seria a Terra Prometida, onde a riqueza está em todas as partes. Os Irmãos Nunes contam que nunca passaram fome ao descerem para Minas. Apesar da pouca água pelo percurso, as plantas sustentavam os viajantes. Eles descrevem o caminho até finalmente chegarem a Minas Gerais, o lugar do ouro, da riqueza e, inclusive, da liberdade. Entendemos que não se trata somente de uma construção geográfica, mas de uma forma de atrair cristãos novos para a Terra Prometida.

Outro relato mental no qual trabalhei está, em parte, no livro “O mapa que inventou o Brasil”. Nesse caso, eu encontrei o mapa primeiro. Trata-se de um mapa do Tocantins, uma tripa de papel bastante comprido, que deve ter mais de dois metros de comprimento, todo em azul, manuscrito português. Nele está representada toda a Bacia do Tocantins, desde o arraial de Meia Ponte até a confluência do Rio Tocantins com o Rio Amazonas. Tive contato com relatos do século XVIII sobre essa área quando uma orientanda pesquisou, em sua dissertação, o Rio Tocantins. Descobri que um desses relatos correspondia à viagem que constava no mapa. É muito interessante quando é possível conjugar o mapa com o relato, pois conseguimos entender todo o processo de construção.

Todo relato passa por essas ideias. A linguagem textual permite outras reflexões para além das possibilidades da linguagem gráfica do mapa. Por exemplo, o caminho dos Irmãos Nunes é apenas um percurso quando representado no mapa, como se fosse uma estrada Belo Horizonte-Bahia. Contudo, ao lermos o relato, percebemos que o que eles descrevem é muito mais complexo. “O mapa precisareduzir” as informações para transformar essa linguagem textual, que pode ser muito mais floreada e conter mais informações, em uma imagem mais objetiva e reduzida.

E: O tema trabalho está presente em algumas de suas publicações, como no artigo “Barbeiros, cirurgiões e médicos nas Minas colonial.” Como essa questão entrou na sua pesquisa?

J: Inicialmente, esse tema entrou na minha pesquisa pela escravidão, quando trabalhei com a história da Chica da Silva. Evidentemente, tive que tratar com a biografia dela, mas também com um contexto referente ao que significavam as mulheres forras em Minas Gerais naquele momento, especialmente na região do Distrito dos Diamantes. Além disso, pesquisei sobre o mundo dos escravos – de onde ela se origina –, que tenho trabalhado a partir de um banco de dados de nascimentos, casamentos e óbitos de escravos do lugar que teve uma extração mais longeva de diamantes, visto que o ciclo do diamante durou mais tempo do que o do ouro.

Por volta de 1760 a produção de ouro estava decaindo na Capitania de Minas Gerais, mas isso só acontece com o diamante perto de 1818. Repor a mão de obra escrava via tráfico se torna mais difícil, nesse momento, em extrações de ouro do que em extrações de diamante, que ainda estão no auge. Existe capital para a compra de novos escravos, o que faz com que a região do Distrito Diamantino seja a última região em Minas Gerais a substituir a mão de obra africana pela do escravo nativo. Isso fica muito evidente na pesquisa com os dados de inventários, certidões de nascimentos e óbitos.

Até o início do século XIX, a mortalidade infantil, por exemplo, é enorme na região, pois não há preocupação em reproduzir a mão de obra pelo nascimento, uma vez que o tráfico está sendo capaz de repor essa mão de obra. É interessante como nos índices de batismo ficam visíveis os mecanismos de acomodação dessa mão de obra. Escrevi alguns artigos sobre isso. No artigo “A pequena África”, demonstro que existe uma africanização muito forte dessa sociedade. Um censo de 1784 pontua a população livre dentro dos domicílios do arraial: cerca de 60% são negros e 48% dos chefes de domicílio são mulheres africanas. Ou seja, é uma sociedade negra, mesmo entre os livres e libertos. Além disso, é interessante notar que a maioria dessas mulheres não estava associada a uma profissão, pois elas vivem da mão obra escrava. Uma vez libertas, se afastam do mundo do trabalho.

A outra vertente sobre a temática do trabalho que me interessa é a dos barbeiros, cirurgiões e médicos. No livro que comentei anteriormente, o “Erário Mineral”, o argumento se aproxima da medicina hipocrática e galênica, que relaciona o corpo com o meio ambiente. Nessa concepção da época, que é holística, o autor [Luís Gomes Ferreira] afirma que é preciso exercitar uma medicina específica na região, já que a região é específica em relação ao mundo português – possui clima diferente, alimentos diferentes, mão de obra escrava com condições de trabalho muito

diferentes. Desse modo, o que é exercitado na medicina em Portugal não serve em Minas Gerais. O autor faz o esforço de adaptar. Afinal, a medicina [de Minas Gerais] utiliza muito o que está na natureza, e assim começa um processo de substituição das receitas de produtos europeus, no qual Gomes Ferreira vai procurar uma correlação com produtos da terra. Com esse esforço, ele acaba incorporando um conhecimento que vem dos índios e dos africanos.

Dentro da geografia, também desenvolvo o tema pelo viés da hierarquização do trabalho, no contexto da geografia europeia no século XVIII. Diferentemente da geografia de Portugal, que produzia mapas buscando instrumentalizar a Coroa, no mundo da geografia típica da França e da Inglaterra – que é uma geografia voltada para o mercado –, o geógrafo sobrevivia de pensões régias, mas também da venda de seus mapas. Assim, existia uma ampla divisão do trabalho, com editores, geógrafos, gravadores, desenhistas, pintores, calígrafo – aquele que tem uma boa letra e é chamado só para desenhar os nomes nos mapas –, além de impressores e livreiros.

E: Você está produzindo um novo livro, previsto para ser lançado até o fim do ano. Poderia contar mais sobre esse projeto?

J: O livro se chama “Quebra-cabeça africano” e é sobre um pirata e um romancista, ambos ingleses, um diplomata português e um cartógrafo francês que mudaram a cartografia da África. Esse projeto surgiu a partir de um pedido realizado em 1725 por Dom Luís da Cunha para que D’Anville se debruçasse sobre a geografia da África Meridional, a fim de justificar e embasar geograficamente, com um mapa, um projeto de travessia entre Moçambique e Angola, então colônias portuguesas, sendo a primeira no leste e a segunda no oeste da África.

Nesse momento, havia uma intensificação da pirataria holandesa em relação a esse domínio da costa africana. Dom Luís concluiu que deveria defender a costa desses piratas pelo domínio e desenvolvimento do comércio português na área, aproveitando a vantagem de as colônias se situarem praticamente no mesmo paralelo entre as duas costas, possibilitando promover a conexão para explorar o interior da África. Na carta que escreve ao rei, Dom Luís afirma que teve essa ideia a partir da leitura de um livro, que ele não identifica qual é.

Retomei esse tema com vários questionamentos, desde descobrir que livro seria esse que inspirou Dom Luis da Cunha até o processo de construção do mapa pelo D’Anville, quais instrumentos cartográficos ou mapas mentais foram dados a ele. Acabei descobrindo que o livro era um romance de pirataria, do Daniel Delfoe, chamado “Captain Singleton”, um sucesso editorial europeu na época, que consiste em uma viagem de piratas ingleses que acabam naufragando na costa da África, perto de Moçambique, e resolvem fazer a travessia até a costa oeste. Outra questão são as fontes que D’Anville utiliza. Me interessou como o conhecimento geográfico dos africanos aparece nesses mapas via releitura portuguesa. Da mesma forma, como os africanos são representados no mapa.

O dado mais interessante desse mapa é que a maior parte da África é um grande branco, com exceção de uma pequena região de Moçambique e Angola e de outros pontos, como o Cabo da Boa Esperança e a pequena área de dominação holandesa na época. O restante do mapa é um imenso vazio, é muito mais branco do que representação geográfica. E o mapa é um grande sucesso. D’Anville o defende a partir da ideia iluminista e racional de uma geografia afirmativa, que tem que espelhar o real conhecimento que os europeus possuem sobre um determinado território. Aquilo que não se sabe, deixa-se em branco.

O mapa deveria apresentar até onde os portugueses tinham ido e o pouco que faltava para completarem a ligação. Os locais sobre os quais havia conhecimento geográfico tinham a função de espelhar até onde os portugueses chegaram no interior da África, com o objetivo de legitimar o domínio territorial português. Dentro dessa lógica, dominar o conhecimento geográfico seria uma garantia do direito legítimo sobre o território. Essa postura favorece [os portugueses] frente à comunidade internacional. Trata-se de uma forma de usar a universalização do conhecimento como legitimadora da posse, e não o contrário. O que Portugal estava fazendo até então era manter em segredo as informações sobre o território dominado para evitar invasões estrangeiras.

No livro, também demonstro como o ato de apresentar a África como um grande vazio prepara, do ponto de vista imagético, para o imperialismo. A África passa a ser vista pelos europeus como um espaço vazio que pode ser ocupado e retalhado ao bel-prazer pelos europeus, como se ali não tivesse ninguém. Isso demonstra a falta de reconhecimento das estruturas sociopolíticas dos povos africanos, somada a outros movimentos intelectuais que a Europa estava vivendo na época. Por exemplo, uma etnografia nascente com uma ideia de civilização/barbárie, segundo a qual os africanos estão classificados na base da pirâmide e os europeus no topo, representando um destino civilizatório. Da perspectiva imagética, o mapa é saudado pela intelectualidade europeia como uma grande conquista dos europeus, no sentido de eliminar uma geografia fantástica e legitimar o olhar do europeu de que a África é um grande vazio.

E: Para finalizar, o que você achou do formato do “História em Roda Viva”, que busca apresentar os principais estudos e reflexões acadêmicas dos seus participantes para historiadores e público interessado?

J: Acho o formato interessante, principalmente neste momento em que a historiografia brasileira tornou-se uma historiografia madura. Além disso, é necessário deixar esse repositório no momento em que as verbas estão diminuindo. Devemos tentar ampliar ao máximo a ideia [do “História em Roda Viva”], pois é importante deixar um registro de memória da nossa geração de historiadores, para além dos nossos livros e artigos, mas na fala das pessoas. Foi muito interessante ter feito várias ligações da minha trajetória, da minha escrita. Não tinha refletido sobre isso. É claro que existe uma trajetória individual, mas que não pode ser desconectada, uma vez que ela só se explica e se realiza em uma ação coletiva da nossa historiografia, que se profissionalizou e abriu o diálogo com a comunidade estrangeira.

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